sábado, 22 de novembro de 2008

Começo, meio e fim



Pan Dea encerra um ciclo.
Soube crescer, congregar e dar frutos, hoje sabe e necessita hibernar e descansar.
Agradecemos infinitamente a cada uma das pessoas que aqui contribui com seus escritos, a todos, aos de hoje e aos de ontem.
Agradecemos de igual forma a você leitor que por aqui passou e apreciou, ao que curiosidade sentiu, ou a aquele que apenas visitou...

Desejo que bons ventos sempre nos cerquem e aproximem!


Luciana Onofre

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A morte é uma semente de mostarda

É quase inevitável pensarmos no que representa esta época do final de outubro, seja pelo popular Halloween, pelo cristão Dia de Todos os Santos, ou pelo celta Samhain, ou outras crenças que giram em torno do mesmo contexto desta celebração e o grande mistério: a morte!
Talvez por ter sido popularizado, este conceito de morte, ligado a este final de mês, muitas pessoas acabam se envolvendo nesta celebração interna, de profunda ligação com os ancestrais que se foram, e que são respeitosamente lembrados, seja ao pedir que rezem uma missa em seu nome, ou acendendo uma vela e oferecendo um banquete.
Não acho que deva escrever o que era para os romanos, pois desta vez me é importante expor o que é hoje, pra mim, esta celebração dentro das práticas voltadas ainda neste contexto.

Como praticante, de certa forma, da religio romana, eu tenho meu lararium em casa, onde fica, entre tantas outras coisas, a foto de minha falecida avó, junto com a santa cristã da casa. A santa por respeito à crença dela, da família, e por todos os valores que me foram passados, independente da religião. Faz parte daqui, do meu sangue, e em celebrações voltadas a este tema, não há como esquecer da minha genealogia: é o princípio e o suporte da minha prática como um todo.
Lidar com as lembranças é difícil às vezes, mas em tempos como este, eu prezo a comunhão com aqueles que me são queridos e que estão por aqui, cuidando da minha família com o mesmo amor que em vida. É dia de lembrar e acender uma vela em honra aos que se foram. É também a chama a personificação de Vesta, a deusa do fogo doméstico, que nos aquece e nos une ao seu redor para comungar.
É conveniente dizer, então, que na minha casa a reunião é também na cozinha. Lá minha avó preparava as delícias das celebrações religiosas, lá era almoço e janta, conversa e silêncio... Pois enquanto colocamos a mesa, preparamos a comida, provamos o tempero, estamos vivendo parte do culto familiar, o simples sentimento de união, seja como for.

A morte aqui não é apenas despedida. É recomeçar sempre um novo ciclo. Mesmo se tratando do adeus a uma pessoa querida, estamos ingressando em um novo processo. Para alguns é o luto, a busca de aceitação interna. Para outros é a comemoração, pois a natureza fez seu papel e o sofrimento se esvai com esta nova jornada. A saudade fica, com certeza, porque a ausência nos traz isso, mas não devemos encarar tão somente com pesar.

Aliás, uma das culturas que está presente em minha vida é a oriental, o budismo especificamente, e cuja visão da morte eu acho fantástica. Há, inclusive, uma parábola chamada “A semente de mostarda”, que conta a história de uma mãe que busca Buda pedindo que traga seu filho de volta a vida. Ele, então, lhe diz que concederia o pedido se ela conseguisse uma semente de mostarda preta em uma casa onde nunca houvesse entrado a morte. A mãe então vai em busca, mas em cada casa que recebia a semente, ouvia que alguém da habitação havia morrido. A mulher, então, consolada e tendo ouvido a sabedoria de Buda, descobre dentro de si a resposta para a dor: a morte é o destino comum de tudo que vive, e imortal é aquele que não carrega dentro de si o egoísmo. E assim ela encara a dor, enterra o filho, e busca a sabedoria e o consolo do Mestre.

Não há noção mais bela e perfeita que esta.
Vale à pena refletir nos próximos dias, aproveitando as energias que estão no ar, o significado da morte. Buscar dentro de nós mesmos o que nos move e o que nos chama a celebrar os antepassados, e enxergar este mistério divino não com temor, mas com placidez e respeito. Há nesta passagem, um símbolo que nos desperta para algo significativo e profundo, e é extremamente individual.
Um dos símbolos, pra mim, é o fogo que é aceso na cozinha...e também é muito mais que isso.


BIBLIOGRAFIA
Parábola “A semente de mostarda” - http://www.vertex.com.br/users/san/mostarda.htm
Imagem: Mosaico romano, no Museo di Capodimonte - http://static.flickr.com/55/118912776_511ed9805c.jpg

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Coisas, conteúdos e diferenças

Há tanto, tanta coisa boa, que enche os olhos e nos faz sorrir de satisfação, de empatia espalhado pelo mundo vitual...

Mesmo advindo de quem menos se espera ou de quem às vezes faz uso da palavra de forma discrepante da nossa.
Saber apreciar letras e pensamentos paridos dos outros, mesmo que não concordemos em outros aspectos com os autores, mostra que o amadurecimento se faz, e acontece.
Passo dias sem visitar blogs, por n motivos, e quando volto a dar minhas caminhadas me deparo várias vezes com textos bonitos, bem fundamentados, coesos e que casam com o momento que se vive.
E ao ler e me pegar sorrindo, penso quão superflúo e banal é entregar-se a rixas, e desavenças, ou antipatias entre pensadores pagãos...Por que se o escrito nos faz sorrir, nos deixa com um alento na mente, se mostra então bem sucedido no quesito tocar ao leitor...
E a reflexão que decorre disto, de reaver conceitos e estimativas, valorações, mostra que abstraindo caras e bocas, indo a fundo na essência do que o outro pode oferecer e compartilhar, o ser em sociedade, mesmo que virtual, surge com outra roupagem, a de que desprovidos de pre-noções e julgamentos de terceiros apropriados muitas vezes por osmose, podemos absover mais e melhor o saber alhéio.
Concluindo, penso que distanciar-se um pouco do entrementes do fazer pessoal social, pode ser positivo, e permitir que deixemos de lado o pé atrás, e possamos adentrar na mente de quem escreve, sem pensar em outros aspectos que nos separem e dividam.
Nas diferenças mora muitas vezes o tempero que pode estar faltando na sua cozinha.
Pena que não seja possível sempre manifestar nosso apreço pelo escrito, pois corremos o risco de passar por vira-casacas, ou mal compreendidos terminar...
Entre tanto, há a esperança de que no amanhã quem escreve e quem lê, tenham espaço para emitir valorações positivas e serem aceitos como coadjuvantes da grande peça da vida pagã.
Em todo caso, abra sua mente, esqueça as embalagens ou críticas não suas, e leia o que os demais escrevem, pode ter surpresas mais do que satisfatórias!

Luciana Onofre

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sabedoria Ancestral

Inaugurando minha estadia nesta casa, falarei de um dos tópicos mais importantes no paganismo....Ancestralidade.

Aproveitem!
Aline Martins

Muitas pessoas me procuram tentando descobrir a cura para uma nostalgia ou saudade de lugares, culturas e pessoas que nunca conheceram. Mas o que mais fere estas pessoas, não é a dor da saudade, ou ansiedade e sim o medo que habita suas mentes e almas.

“Porque tenho saudade de algo que não faz parte de minha ancestralidade? Porque prezo tanto algo que não está em meu sangue ou em minha terra?”, estas são as perguntas que tiram o sono de muitos hoje em dia.

“Não é traidor, o Salmão. Pois ele retorna à sua casa. Quando você está cansado de procurar lá, você irá encontrar a resposta aqui.”

Gales, século IV

As antigas histórias nos dizem que se seguirmos o Rio Boyne na Irlanda em direção a sua fonte você irá chegar a um lago sagrado circundado por nove aveleiras. Essas árvores em tempos antigos eram muito importantes. Observando estas árvores verá que tem folhas verdes e seu tronco conforme a luz do sol bate muda do marrom para púrpura. Gordas avelãs nascem entre suas folhas verdes brilhantes e de vez em quando uma delas caem dentro da água da fonte. Se nós sentarmos quietamente diante desta água e olharmos sua profundidade nós talvez possamos ter sorte suficiente para ver um de seus habitantes. O Salmão silencioso nadando em suas águas e pulando vez em quando para pegar uma das avelãs.

Este lago é chamado de “Conla’s Well” ou “Well of segaes”. Algumas vezes é dito que neste lugar existe uma fonte que alimenta este lago, as nove aveleiras sagradas alimentam o salmão e fazem dele a criatura mais sábia da Terra.

O objetivo da espiritualidade celta e do druidismo é “capturar um destes salmões”. Algumas histórias dizem que devemos comê-lo, outras dizem para você montar em suas costas e ele nos levará ao Mabon, ou seja, encontrar a criança da luz, aquela que traz a vida eterna.

Para atingir este objetivo, na verdade temos que redescobrir o amor, sabedoria e preenchimento criativo que todos nós temos, e voltar atrás da mesma forma que o salmão volta ao seu local de nascimento. Da mesma forma que a psicoterapia nos diz que devemos voltar à infância para encontrar a renovação, nós precisamos seguir o rio até sua fonte. Através das práticas druídicas é possível de certa forma voltar no tempo em busca da sabedoria ancestral assim como, voltar no tempo para considerar nossas próprias vidas e então juntos a história de nossas vidas e dos ancestrais estaremos indo de encontro ao momento de renascimento e renovação, a fonte de nossa estória pessoal e a fonte de nossa hereditariedade espiritual.

Para muitas pessoas de ancestralidade européia a fonte pode ter sido esquecida. Muitos acreditam que sua cultura está enraizada no Cristianismo, quase esquecendo que há milhares de anos antes do Cristianismo a espiritualidade já existia em outra forma. Nosso passado pré-cristão foi tão bem enterrado, que a maioria das pessoas acreditam que nós não sabemos nada a respeito da cultura ou espiritualidade de nossos ancestrais mais remotos. Mas na verdade existem muitas evidências quase sempre sensacionais, inspiradoras e bonitas que podem ser interpretadas legitimamente de maneiras diferentes.

Cada região, cada tribo desenvolvia uma espiritualidade que crescia a partir do relacionamento do povo com a terra. Alguns locais como montanhas e rios, vales ou fontes, tornam-se centros de trabalhos religiosos, com as Deusas e Deuses sendo venerados como guardiões espirituais destes locais especiais. Desta maneira as práticas locais se desenvolveram e vagarosamente passaram a interagir com as práticas de sua vizinhança. Algumas deidades tornaram-se populares e foram adotadas mais universalmente; alguns costumes religiosos morreram, enquanto, outros floresceram e se espalharam.

Muitas das características destas práticas pré-cristãs européias foram encontradas em várias tradições indígenas ao redor do mundo Alguns escritores vendo as similaridades entre as tradições indígenas desenvolveram teorias de migração e comunicação, mas que outra maneira, eles perguntam, nós podemos explicar tantas similaridades de crenças e práticas? Alguma destas teorias talvez seja verdade, e com certeza existia muita comunicação e viagem, mesmo num passado distante. Mas o provável é que a maior influência nestas tradições diferentes não era o contato com outras culturas, mas o contato com os princípios internos que eram comunicados pela própria natureza. Através dos séculos e através do mundo pessoas se encontravam ao redor do fogo, diante de uma fonte, diante de um eclipse, ou sob as estrelas, e foram inspirados a criar rituais e histórias sagradas que refletiam sua experiência sobre estes fenômenos naturais.

A Deidade originalmente confinada a uma região começa a ser reverenciada em outros locais. Com a troca, migração e casamento essas práticas locais começaram a emergir, desenvolvendo-se juntas.

Por isso, quando dizemos que o culto aos ancestrais é a prática mais importante no Druidismo, não estamos nos referindo somente aos nossos ancestrais físicos, mas também aos nossos ancestrais espirituais. Aqueles que, o inconsciente coletivo nos apresentou e que fazem com que nossas vidas ganhem um sentido muito mais profundo e inspirador.

Aline Martins
Embaixadora da Loyal Arthurian Warband no Brasil - www.warband.org.uk
e membro da Order of Bards, Ovates and Druids - Inglaterra - www.druidry.org


Quem é a Aline Martins?

Aline Martins é Representante da Ordem Druidica Inglesa - Loyal Arthurian Warband e membro da Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas (OBOD) -Inglaterra. Estudiosa da Cultura Celta e Praticante de Druidismo há 15 anos, foi iniciada pelo Chairman do Conselho Britânico de Druidismo na Inglaterra.

Hoje, coordena o Grupo Druidico "Bosque Sagrado das Terras de Pitanga" e é membro do Nemeton Tabebuya. Além disso, divide seu tempo entre a Direção e apresentação da Rádio Virtual sobre Música e Cultura Celta - HyBrasil Podcast, e a disseminação do Druidismo através de seu curso à Distância.

www.adruida.com
www.hybrasil.mypodcast.com
e-mail: adruida@adruida.com

sábado, 6 de setembro de 2008

Os espíritos romanos

Acerca do culto doméstico, vou dar uma complementada no assunto previamente escrito a respeito do culto aos mortos na religio romana¹.
No texto que escrevi, coloquei de maneira geral como era encarada a morte na antiga Roma, e vimos que o culto era voltado para os ancestrais, o que tornava a prática bastante pessoal e familiar. Isso se dava pelo caráter cultural romano de ter a família como base, o que também era o eixo que unia todas as famílias em um culto semelhante. Mas hoje o tema será voltado para os espíritos domésticos, deuses menores que protegem o lar e a família, mas que possuem características individuais. Vamos ver um pouco sobre alguns destes espíritos, para entender o que cada um simboliza e a maneira de incluí-los em nossas práticas pagãs de hoje.

Para começar, vamos falar primeiro dos Lares, que são as principais deidades domésticas no culto romano.
Assim como veremos em outras gêneros de espíritos, haviam vários “tipos” de lares, como os Lares Familiares, protetores da família, os Lares Domestici, protetores da casa, os Lares Compitales, protetores dos caminhos, os Lares Viales, protetores dos viajantes, entre outros de caráter público. As celebrações: Compitalia (3 a 5 de janeiro, festival dos lares compitales), 1º de maio (lares publici).
O Genius♂/ Juno♀ é, de maneira geral, um espírito que olha por um indivíduo (sendo uma espécie de essência vital), por uma comunidade ou por um determinado lugar (Genius Loci). O genius pessoal é representado por um(a) jovem, enquanto o de um lugar é representado por uma serpente. Dia 9 de outubro é dedicado ao genius publico, e o genius pessoal é celebrado no aniversário do indivíduo.
Os Manes são os espíritos dos antepassados. Na antiguidade, os familiares levavam banquetes ao túmulo, práticas semelhantes a estas, já tendo escrito no outro texto, comuns até hoje, como é o caso das flores que levamos em cemitérios ou lembranças de maneira geral para adornar o túmulo dos entes queridos que já se foram. O período de celebração em honra aos manes vai do dia 13 a 21 de fevereiro, iniciando com comemoração privada no dia 13 (Parentalia), e encerrando com comemoração pública no dia 21 (Feralia).
Já os Penates, são espíritos ligados à casa, cujo nome vem do latim penus, que significa “dispensa”, e por isso estão ligados também à prosperidade e fartura. Os penates, assim como os genius e os lares, possuíam também um caráter público que estava incluído nos publis cultus. Seu festival ocorre dia 14 de outubro.

É importante ressaltar que há semelhanças no que se refere às características e ‘funções’ de alguns desses, mas isso não significa que são os mesmos. Cada um possui seu diferencial, e também cabe a nós identificar e entender o que representa cada espírito em nossa prática dentro do paganismo moderno, sem deixar que a essência de cada gênero se perca.


¹ Vide o texto “Culto aos Mortos”, publicado em 9/7/2008. Link aqui.

BIBLIOGRAFIA
Historia de Roma”, Theodor Mummsen
Mitologia Greco-Romana”, René Ménard
Lealdade Sacra (yahoo groups)
http://www.1911encyclopedia.org/Penates
http://www.pantheon.org/
Imagem: http://www.vroma.org/images/mcmanus_images/lar_london.jpg

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sobre Encantamentos, Feitiços e Bruxaria


Os últimos dias, semanas, graças a leituras, passei a ver de outra forma a questão como são elaborados encantamentos, feitiços e correlatos.

Decidi (lógico de forma pessoal, logo aplicável sem dúvidas por mim) que são muitíssimo mais efetivos encantamentos e feitiços redigidos ou proferidos sem termos, sem léxico negativo.

Mesmo que a intenção seja a de por assim dizer "ver-se livre de algo", a redação ou encadeamento de palavras surtem efeito rápido e certeiro, se com acuidade forem selecionadas apenas frases que não contenham "quero banir, quero que parta, quero que suma...etc,etc..."

Se ao invés disto, reformulássemos as frases, jogando de forma inteligente com os significados e significâncias, criando encantamentos onde se ressalte o positivo, o que desejamos de bom como algo já concreto, o encantamento-feitiço é mais garantido.

Por ter experimentado e confirmado sua eficácia, comparto aqui com vocês essa minha nova leitura sobre algo que faz parte do cotidiano das Bruxas.

Quem sabe fazendo assim, se inicia um novo ciclo dentro da Bruxaria, onde as Brux@s se mantenham sempre permeadas de positividade e sucesso.

Seja em questões e questões...



Luciana Onofre

sábado, 2 de agosto de 2008

Boitatá - A Serpente de Fogo

No tupi, Boitatá significa "coisa de fogo".Esta figura mitológica é representada por uma serpente de fogo que protege as matas, e persegue aqueles que desrespeitam a natureza. Há algumas versões sobre sua forma e história, pelo que pude encontrar, mas vou colocar a que mais encontrei.

A noite havia caído, e demorava para ir embora. O povo entrava em desespero pois assim não daria para plantar e nada se via. Enquanto isso, em uma gruta escura vivia a Boiguaçu, a Cobra Gigante, que de tanto viver no escuro seus olhos cresceram e ficaram iluminados como duas tochas.Junto com a escuridão, caiu uma chuva tão forte que todos os lugares baixos foram inundados. As pessoas e animais fugiram, e a desordem se espalhou. A gruta de Boiguaçu havia sido inundada, e assim que acordou e se deu conta do ocorrido, deixou sua gruta. Diante da necessidade, todos os animais acabaram ficando amigos, menos Boiguaçu, que se mantinha sempre distante.
A chuva cessou, mas a escuridão continuava, e os bichos não encontravam o caminho de volta. O tempo foi passando, e a fome aumentando. Foi quando as brigas começaram às escuras, e somente Boiguaçu via tudo, com seus olhos de fogo. Ela, como os demais, sentia cada vez mais fome, e não havia atacado ainda por conta da grande quantidade de animais. Mas a fome não podia esperar, e então ela preparou-se para o ataque e deu o bote na onça, que era a mais próxima. Como tinha preferência por olhos, ficava satisfeita em comê-los apenas. E então começou a matar outros animais, comendo apenas os olhos, e quando ficava satisfeita, recolhia-se num canto e dormia.
Como sua pele era muito fina, ela começou a ficar luminosa, com a luz dos inúmeros olhos engolidos. Os que viram a cobra não a reconheceram e pensaram que fosse uma nova cobra. Deram-lhe, então, o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo.
A partir de então, as pessoas não tiveram mais sossego. Viviam com medo de ser atacadas pelo monstro. Do jeito que ele andava matando os bichos, logo necessitaria atacar as pessoas. Entretanto, tiveram sorte. A preferência do Boitatá foi a sua própria perdição.
Só comia olhos e, assim, foi ficando cada vez mais luminoso e mais fraco, também, pois os olhos não sustentavam, embora lhe satisfizessem o apetite. Tão fraco ficou que acabou morrendo, sem conseguir sequer sair do, lugar!
O monstro morreu, mas a sua luz esparramou-se pelos brejos e cemitérios e hoje pode tomar a forma de cobra ou de touro. Parece que, por castigo, o Boitatá ficou encarregado de zelar pelas campinas.
(Dei uma resumida, mas para ver o texto inteiro clique aqui)

Em alguns sites, como este do texto, chamam Boitatá de "gênio que protege os campos", ou seja, além de um ser mitológico, me pareceu uma entidade que vive nas matas, protegendo e punindo quem incendeia ou maltrata a natureza.

Ah, além disso tudo, não só nos sites como no próprio dicionário, há a definição de Boitatá como sendo "fogo-fátuo", que por sua vez é um fenômeno que ocorre em cemitérios, pântanos, que se dá pela liberação de gases no solo (devido a decomposição) e que, ao entrar em contato com o ar quente, resulta em uma explosão rápida, seguido de uma chama azulada.
E quando uma pessoa presencia este fenômeno, se assusta e sai correndo, o ar se desloca e dá a impressão que o fogo a está perseguindo.

Por isso, inclusive, há lendas semelhantes ao do Boitatá em várias culturas, como Gandaspati (Indonesia), Hitodama (Japão), Pwca (País de Gales), Hinkyphunk (Inglaterra), Jack-o-Lantern (Irlanda), Paasselkä devils (Finlândia), entre tantos outros.

[Texto copiado do meu blog, da pesquisa que fiz e citei no post anterior]

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

É o mês do nosso folclore!


Entramos no mês do Folclore, e que tal abrirmos as portas para os mitos brasileiros, e apreciarmos um pouco da nossa própria cultura? Acho fundamental, por mais que às vezes ignoremos, darmos sempre uma atenção básica pra cultura brasileira. E sim, é por patriotismo, mas também porque podemos encontrar aspectos incríveis em nossa própria mitologia. Eu mesma, hoje, pesquisando sobre Folclore para escrever no meu blog, encontrei coisas que eu nem tinha noção.Escrevendo sobre Boitatá, descobri que há personagens mitologicos semelhantes espalhados pelo mundo. Fiquei surpresa em ler isso, e está sendo um incentivo para buscar outros elementos culturais.

Então convido os colunistas a escreverem um pouco sobre folclore, seja da sua região, ou até mesmo de outro país e cultura. Tudo cabe, e quando falamos em diversidade cultural mais ainda!!

E vamos dar espaço em nossos estudos para além de romanos, egípcios, gregos, celtas... vamos dar espaço para nossa própria pátria.
Temos Agosto inteiro, e muito mais, para falar, divagar e conhecer mais sobre o Folclore do nosso verde e amarelo!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

o sagrado é político?


inicio meu trabalho aqui no pan dea, primeiramente agradecendo o honroso convite da querida luciana onofre, e saudando a todos os colaboradores deste site.

hoje gostaria de refletir com vcs sobre a conexão entre políticas femininas e sagrado feminino.

de acordo com ynestra king no seu artigo 'curando as feridas: feminismo, ecologia e dualismo natureza-cultura', (aliás divisão tbm partilhada por muitos outros historiadores), o movimento feminista teve em sua primeira onda uma tendência a buscar igualdade política; a segunda onda tinha suas questões principais na cultura, e a terceira onda, atual, já não se pauta em igualdades mas em diferenças, gerando o pós feminismo e o ecofeminismo. tbm nessa terceira onda, jean shinoda bolen inclui o feminismo espiritual, onde vemos o resgate de toda uma prática acerca do sagrado feminino como forma de valorização não das mulheres em si, apenas, mas de uma ética e de valores 'femininos' como cooperação e não violência, enquanto alternativas para solucionar os impasses da sociedade atual.

dessa forma, vê-se uma legitimação de práticas relativas ao sagrado feminino enquanto política feminina, pois essas práticas não apenas fornecem novos referenciais para a identidade feminina individual, como também, propõem ações sociais que transcendem o gênero, e isso é um posicionamento político, com consequências coletivas; um desdobramento do movimento de mulheres.

é claro que o reconhecimento da conexão entre políticas femininas e sagrado feminino no mundo acadêmico não implica na aceitação automática desta ou na existência de opiniões individuais a respeito. eu mesma conheço pessoas que rejeitam veementemente a idéia de que qualquer atividade envolvendo sagrado e magia, possa ser interpretada como ato político.

a própria história da magia ou das mulheres mágicas desaconselham esta conexão (vide caça às bruxas), e é compreensível então, que as pessoas queiram manter em patamares separados as ações religiosas das políticas. de fato, pouca gente aceitaria sofrer consequências políticas derivadas de sua escolha religiosa.

creio que para certos grupos religiosos fica mais clara ou mais tênue a conexão com a política. o islamismo e o massacre dos judeus são exemplos ululantes. tentando ser mais circunscrita ao paganismo, não é segredo que suas práticas sofreram tentativas sucessivas de dizimação por parte de grupos invasores das terras, e portanto, historicamente pode-se enxergar a conexão nítida entre domínio político e religioso.

atualmente, para certos grupos como o dianismo, o parentesco do sagrado com a política não é tão desconfortável. no entanto, entre mulheres desconhecedoras da história do feminismo e questionadoras da própria serventia do mesmo, a criação de uma identidade religiosa e social não passa por questões políticas. muitas, abraçando a crença no festejado 'equilíbrio' entre as forças sagradas femininas e masculinas, chegam a acreditar que matrifocalidade quer dizer automaticamente feminismo ou domínio dos homens pelas mulheres. dessa forma, parece-me que o principal empecilho à conexão do sagrado com as políticas feministas, é a famigerada questão do equilíbrio.

muitas dianistas e feministas já sofreram não apenas ataques dos homens, mas das próprias mulheres que repudiam um domínio feminino supostamente reivindicado por esses grupos de mulheres. discursos sobre a necessária valorização da mulher também não são bem compreendidos. pessoalmente penso que, por uma questão de lógica, milênios de patriarcado não desembocariam num imediato equilíbrio idílico, da mesma forma que um movimento forte de pêndulo para um lado não desemboca em parar no centro de repente. com isso defendo que esperar um equilíbrio harmonioso de forças nos dias atuais, é um tanto irreal. brinco que seria necessária muita 'superioridade' das mulheres para conseguirem parar o pêndulo no centro, e é isso o que algumas defensoras do equilíbrio estão supondo: que todas as injustiças históricas sofridas pelas mulheres possam ser completa e automaticamente perdoadas e transmutadas, pra não dizer ignoradas, em nome de um esforço por equilíbrio.

a compreensão profunda do que é proposto pelas políticas femininas hoje, em particular o ecofeminismo, não apenas pelos homens como pelas mulheres; a tentativa de compreender a importância e a real praticabilidade do ideal de equilíbrio, bem como as motivações de todos os diversos grupos que o defendem; a não ignorância de nossa história; e a busca por um sagrado que não implique segregação ou preconceito, são as questões que deixo em aberto aqui.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Culto aos Mortos

Eis que o assunto Morte pouco tratamos. Ela nos traz tristeza, saudade e medo às vezes. Encaramos aqui como uma passagem, um ritual da vida que pode ser celebrado e levado para as práticas pessoais de cada um, sem a idéia de malefício ou obscuridade e “magia negra”. É um tema a ser encarado e colocado sobre reflexão por aqueles que buscam maneiras de cultuar os mortos nas práticas pagãs.
Não posso sair generalizando, porque minha área é o estudo dos mitos e cultura romana. Posso escrever, então, o que leio sobre a antiguidade romana, como eram encarados a morte e os falecidos, e como hoje podemos tomar certas práticas relacionadas.
Para os mais antigos, a alma dos falecidos não passava para outro plano de existência, mas sim se mantinha junto ao corpo, no túmulo; e só mais tarde, veio a crença de que continuavam a vagar entre os vivos, protegendo os parentes e cidades ¹. Tais crenças, de que a alma continuava a "viver" de certa maneira, nos dá base para entendermos o costume de se enterrar objetos junto ao corpo, as oferendas de alimentos e bebida, e os adornos em túmulos.
Alguns citam que, em rituais fúnebres, ofereciam-se moedas à Libitina, deusa da morte, levadas pelos libitinarii ² ao santuário em um bosque sagrado. No santuário, possivelmente nas colinas de Esquiline, em Roma, os mortos eram registrados e todos os atributos para o funeral eram vendidos ou alugados. Esta deusa pode ter sido posteriormente identificada como Proserpina, e com Vênus Libentina.
Os cultos eram basicamente domésticos, se tratando de culto aos ancestrais, o que tornava bastante particular a prática em cada casa. Estavam relacionados à Vesta, deusa da lareira e do fogo sagrado, e às divindades menores, os lares ou manes, penates e gênios. Em toda casa romana havia um altar, o lar, onde devia sempre estar aceso um fogo, alimentado por madeira selecionada e mantido puro, apenas sendo nele lançado frutos, flores, incenso, vinho, oferendas em troca de proteção para a casa e família.

Então, basicamente, o culto dos ancestrais era sagrado e respeitado, sendo mantidas as celebrações apenas entre familiares, como algo bastante privado.
Hoje podemos utilizar alguns desses aspectos em nossas práticas pessoais, honrando nossos ancestrais, lhe oferecendo um altar, banquetes e lembrança. E mesmo o costume que ainda vive, de levar flores e orar nos túmulos, é válido. Tudo é válido, quando se trata de nossa própria maneira de levar a espiritualidade e o respeito pelos antepassados. É ainda algo muito pessoal, e que cada um deve encarar da maneira que lhe convier, assim como suas práticas.
Honremos, então, nossos antepassados com carinho e amor, trazendo conosco as melhores lembranças deixadas por eles.


¹ A relação com Tártaro e Campos Elísios é mais recente
² Empresários